Relatório da StoneX aponta riscos de calor excessivo, irregularidade das chuvas e impactos sobre as principais regiões produtoras do Brasil
O avanço de um El Niño de forte intensidade coloca o agronegócio brasileiro diante de um cenário de atenção para o último trimestre de 2026 e os primeiros meses de 2027. A combinação entre o aquecimento do Oceano Pacífico, possíveis alterações no Dipolo do Oceano Índico e temperaturas elevadas no Atlântico tropical poderá influenciar a distribuição das chuvas e as condições de desenvolvimento de diferentes culturas agrícolas.
Os riscos foram destacados na 37ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities, elaborado pela StoneX e divulgado em 8 de outubro. Segundo o estudo, a intensidade do fenômeno climático é significativa, mas os efeitos sobre a produção dependerão principalmente da distribuição das precipitações, da duração dos períodos de calor e da fase de desenvolvimento em que cada lavoura se encontrar.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) também aponta uma elevada probabilidade de continuidade do El Niño até fevereiro de 2027, com possibilidade de ocorrência de eventos extremos, como ondas de calor, chuvas intensas e períodos de estiagem.
Cerrado e Matopiba concentram preocupações
Entre as regiões brasileiras, o Cerrado e o Matopiba — área que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — estão entre os principais pontos de atenção para a próxima safra de soja e milho. A previsão de temperaturas elevadas, acompanhadas de chuvas abaixo do ideal em novembro e dezembro, pode aumentar o risco de estresse hídrico nas lavouras.
A falta de água em momentos decisivos do ciclo produtivo pode comprometer o crescimento das plantas e o potencial de rendimento por hectare. Por isso, o acompanhamento da umidade do solo e da regularidade das precipitações será fundamental para orientar o manejo agrícola.
De acordo com Carolina Giraldo, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, não é suficiente observar apenas o volume total de chuva esperado para a estação. A interação entre diferentes fenômenos oceânicos e atmosféricos pode produzir condições distintas mesmo em regiões próximas, tornando o planejamento mais complexo.
Excesso de chuva pode dificultar trabalhos no Sul
No Sul do Brasil, a perspectiva é diferente. A possibilidade de precipitações acima da média pode contribuir inicialmente para o desenvolvimento das lavouras de soja e milho, mas também representa desafios para os produtores rurais.
Chuvas persistentes podem atrasar o plantio, dificultar a entrada de máquinas nas propriedades e prejudicar o transporte de insumos e da produção. Em áreas com solos encharcados, o excesso de umidade também exige atenção ao manejo para evitar problemas no estabelecimento das culturas.
O comportamento recente do clima reforça a necessidade de cautela. Em julho e agosto, o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina registraram volumes de chuva superiores às médias históricas. Já em setembro, São Paulo e Paraná apresentaram precipitações expressivas: nos primeiros 23 dias do mês, os acumulados ficaram, respectivamente, 273% e 181% acima das médias citadas no relatório.
No mesmo período, o Uruguai enfrentou condições muito mais secas. Essa mudança de padrão evidencia como as condições meteorológicas podem variar rapidamente, dificultando previsões baseadas apenas no comportamento histórico.
Café e cana-de-açúcar também exigem atenção
A cafeicultura do Sudeste brasileiro poderá sentir os efeitos das temperaturas mais altas previstas para novembro e dezembro. Mesmo sem uma indicação generalizada de falta de chuva para toda a região, o calor pode aumentar o estresse das plantas e afetar etapas importantes do desenvolvimento da cultura.
Para a cana-de-açúcar no Centro-Sul, o cenário climático apresenta perspectivas relativamente favoráveis. A expectativa de chuvas acima da média, combinadas com temperaturas próximas ou ligeiramente superiores aos padrões históricos, pode beneficiar o crescimento das plantas. Entretanto, períodos prolongados de umidade excessiva também precisam ser considerados.
Fenômeno climático pode afetar mercados internacionais
Os efeitos do El Niño não se restringem ao Brasil. O relatório da StoneX identifica riscos para países que concorrem com o agronegócio brasileiro nos mercados internacionais.
No Paraguai e no Uruguai, o excesso de umidade pode favorecer inicialmente algumas lavouras, mas dificultar as operações agrícolas. No sul da África, por outro lado, a combinação de calor intenso e chuvas limitadas poderá comprometer o potencial produtivo do milho.
A produção mundial de café também merece acompanhamento. Em países como Colômbia, México e Vietnã, períodos mais secos podem facilitar determinadas operações de colheita, mas a continuidade do calor e a restrição hídrica podem prejudicar o desenvolvimento das plantas e as próximas floradas.
Outras culturas tropicais, como cacau e óleo de palma, também podem enfrentar condições desfavoráveis em importantes países produtores da África Ocidental e do Sudeste Asiático. No mercado de trigo, temperaturas elevadas na Argentina, na Índia e na Austrália representam fatores adicionais de preocupação.
Planejamento será fundamental para o produtor rural
Diante de um cenário climático heterogêneo, o acompanhamento frequente das previsões meteorológicas será decisivo para reduzir riscos na produção agrícola. A análise das condições locais, da umidade do solo e do estágio de desenvolvimento das lavouras poderá auxiliar na tomada de decisões sobre plantio, manejo e operações no campo.
Para o produtor rural, a principal preocupação não está somente na ocorrência de chuva ou seca, mas no momento em que esses eventos acontecem e na intensidade com que atingem cada cultura.
Com a possibilidade de condições climáticas extremas até o início de 2027, o planejamento e o monitoramento contínuo ganham ainda mais importância para a agricultura brasileira. A evolução do El Niño poderá influenciar a produtividade das lavouras, os custos operacionais e as expectativas do mercado de commodities nos próximos meses.









