Fim da escala 6×1 pode elevar custos e encarecer alimentos no Brasil

A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 pelo Senado Federal, na quarta-feira (14), abriu uma nova etapa do debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil. A medida, que prevê a diminuição do limite semanal de 44 para 40 horas e dois dias de descanso remunerado, poderá provocar mudanças significativas na estrutura de custos das empresas e nos diferentes setores da economia.

De acordo com estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a redução da jornada sem diminuição salarial poderá elevar os custos de produção em até R$ 267,2 bilhões. As projeções também apontam para uma possível retração de 0,7% no Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a R$ 76,9 bilhões. Os números integram um manifesto conjunto de entidades empresariais preocupadas com os efeitos econômicos da proposta.

Entre os principais pontos levantados está a possibilidade de repasse dos custos adicionais aos consumidores. Conforme as estimativas divulgadas pelas entidades, os preços ao consumidor poderiam registrar alta média de 6,2%. Os produtos industrializados teriam aumento projetado de 6%, enquanto as compras de supermercado poderiam ficar 5,7% mais caras. Para roupas e calçados, a elevação estimada chega a 6,6%.

As projeções representam cenários apresentados pelas entidades empresariais e não significam que esses aumentos ocorrerão necessariamente. O impacto efetivo dependerá de fatores como produtividade, capacidade de contratação, organização das jornadas, custos operacionais e condições do mercado.

AGRONEGÓCIO PODE ENFRENTAR NOVOS DESAFIOS

No campo, a discussão ganha importância diante das dificuldades enfrentadas pelos produtores rurais para contratar trabalhadores. A atividade agropecuária possui características próprias, com períodos de maior demanda por mão de obra, operações que dependem das condições climáticas e tarefas que precisam ser executadas dentro de janelas específicas para evitar perdas de produtividade.

Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), citado nas informações divulgadas, aponta que 94,8% dos produtores consultados enfrentam dificuldades para contratar trabalhadores. Além disso, 88,3% relatam impactos da escassez de mão de obra sobre a produção.

Nesse contexto, representantes empresariais avaliam que uma redução da jornada sem medidas de adaptação poderá aumentar a necessidade de contratações, horas extras dentro dos limites legais ou reorganização das equipes. Essas alternativas podem representar despesas adicionais, principalmente para propriedades rurais e empresas com margens de lucro reduzidas.

A preocupação se estende às cadeias de produção de carnes, leite, grãos e outros alimentos, nas quais os custos de mão de obra se somam aos gastos com insumos, energia, transporte, manutenção de equipamentos e financiamento.

Caso parte desses custos seja repassada ao longo da cadeia produtiva, o consumidor poderá sentir os efeitos nos preços finais. Entretanto, a dimensão desse impacto dependerá da realidade de cada atividade e da capacidade de absorção das despesas por produtores, indústrias, distribuidores e comerciantes.

TRANSPORTE E COMÉRCIO TAMBÉM ESTÃO NO CENTRO DO DEBATE

As possíveis consequências não se restringem à indústria e à agricultura. A Confederação Nacional do Transporte (CNT) projeta um aumento inicial de R$ 11,9 bilhões nos custos de mão de obra do setor. Como o transporte é fundamental para o abastecimento dos municípios e o escoamento da produção agropecuária, eventuais aumentos de despesas podem repercutir sobre o custo logístico.

Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) também manifesta preocupação com os reflexos da mudança sobre a inflação e a estrutura de despesas das empresas.

Para os pequenos negócios, a adaptação poderá ser especialmente desafiadora quando houver necessidade de manter o atendimento durante mais horas do dia com equipes menores. Por outro lado, os efeitos não serão iguais para todos os segmentos, uma vez que algumas empresas poderão reorganizar turnos, investir em tecnologia ou melhorar processos para compensar parte da redução das horas trabalhadas.

DIREITOS DOS TRABALHADORES E PRODUTIVIDADE

A discussão sobre o fim da escala 6×1 envolve interesses econômicos e sociais. Os defensores da redução da jornada destacam a possibilidade de ampliar o tempo de descanso, melhorar a qualidade de vida e favorecer a convivência familiar. Também argumentam que jornadas mais equilibradas podem contribuir para a saúde, o bem-estar e a produtividade dos trabalhadores.

As entidades empresariais, por sua vez, defendem que mudanças dessa dimensão sejam acompanhadas de estudos sobre os impactos econômicos e de mecanismos que permitam aos setores se adaptar às novas regras.

Entre as alternativas defendidas pelas confederações estão períodos de transição mais flexíveis, negociação coletiva e consideração das particularidades de cada atividade econômica. O objetivo, segundo essa perspectiva, seria evitar que a alteração das jornadas provoque desequilíbrios na contratação, na produção e na sustentabilidade financeira das empresas.

O desafio está em conciliar a melhoria das condições de trabalho com a capacidade de manutenção dos empregos formais e da atividade econômica. Para isso, será importante avaliar não apenas os custos adicionais, mas também os possíveis ganhos de produtividade e os efeitos sociais da mudança.

O QUE ACONTECE AGORA?

A PEC 221/2019 foi aprovada pelo Senado por 75 votos favoráveis e um contrário, em dois turnos, conforme as informações divulgadas. O texto prevê a redução da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e dois dias de descanso remunerado.

A etapa seguinte indicada na matéria original é a promulgação. A implementação das novas regras e seus efeitos práticos dependerão do texto definitivo, das disposições aplicáveis e de eventuais regras de transição.

O debate, portanto, vai além da quantidade de dias trabalhados por semana. Envolve a renda dos trabalhadores, os custos das empresas, o comportamento dos preços e a capacidade de diferentes setores de manter seus níveis de produção.

Para o agronegócio brasileiro, que tem papel relevante no abastecimento interno e nas exportações, será fundamental acompanhar como as novas regras poderão se ajustar à sazonalidade das atividades rurais e à atual dificuldade de contratação de mão de obra.

A questão central será encontrar um equilíbrio entre melhores condições de trabalho e sustentabilidade econômica, sem ignorar os desafios enfrentados por quem produz, transporta, industrializa e comercializa os alimentos que chegam diariamente à mesa dos brasileiros.