A crescente preocupação com a sustentabilidade na indústria têxtil e a busca por matérias-primas de origem natural estão abrindo novas perspectivas para a produção de algodão no Paraná. Após perder espaço para outras culturas agrícolas nas últimas décadas, o Estado busca recuperar sua participação na cotonicultura, apostando em tecnologia, assistência técnica e diversificação das lavouras.
Um dos produtores que estão investindo nessa possibilidade é Ricardo Padulla, que arrendou 35 hectares em Santo Inácio, no Norte do Paraná, para iniciar o cultivo de algodão. O planejamento prevê a semeadura até a primeira quinzena de novembro de 2026. A decisão foi motivada pela adaptação da cultura às características do solo da região, especialmente os terrenos de arenito, e pela capacidade da planta de enfrentar períodos de menor disponibilidade de água.
Segundo Padulla, a organização da cadeia produtiva também pesou na escolha. O agricultor avalia que o algodão pode apresentar vantagens em determinadas condições regionais, tornando-se uma alternativa interessante para ampliar as possibilidades de renda no campo.
Sustentabilidade fortalece o mercado das fibras naturais
O interesse pelo algodão acompanha uma discussão cada vez mais presente no mercado mundial: os impactos ambientais dos tecidos sintéticos. Materiais como poliéster e nylon liberam microplásticos durante processos como a lavagem das roupas, contribuindo para a contaminação da água e de outros ambientes.
Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) apontam que aproximadamente 35% dos microplásticos encontrados nos oceanos têm origem na lavagem de tecidos sintéticos. Nesse cenário, fibras naturais, como o algodão, ganham relevância nas discussões sobre alternativas para uma indústria têxtil mais sustentável.
O assunto esteve em evidência durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em setembro, em Belo Horizonte, Minas Gerais. O encontro reuniu representantes do setor para debater pesquisas, práticas produtivas e perspectivas para a cotonicultura nacional e internacional.
O Sistema FAEP, em parceria com a Associação dos Cotonicultores Paranaenses (Acopar), levou 20 produtores do Paraná ao evento, com o objetivo de ampliar o acesso a informações e fortalecer o desenvolvimento da atividade no Estado.
Para Almir Montecelli, presidente da Acopar, a valorização dos tecidos naturais representa uma oportunidade para os produtores brasileiros. A discussão sobre os microplásticos e a preocupação dos consumidores com os materiais utilizados nas roupas podem favorecer o algodão, especialmente em produtos destinados a públicos que priorizam conforto e composição das fibras.
Paraná busca recuperar espaço na cotonicultura
O histórico paranaense demonstra a importância que a cultura já teve para a economia agrícola estadual. Na safra 1991/92, o Paraná liderava a produção nacional de algodão, com aproximadamente 709 mil hectares cultivados, área equivalente a 36% do total brasileiro naquele período.
Entretanto, a disseminação do bicudo-do-algodoeiro, o avanço da soja e as dificuldades econômicas enfrentadas pelos produtores contribuíram para a redução expressiva da atividade. Atualmente, o Estado possui cerca de 1,7 mil hectares destinados ao algodão, uma área muito inferior à registrada durante o período de maior expansão.
A possibilidade de recuperação, porém, começa a ganhar força com o aprimoramento das tecnologias de produção e o fortalecimento da organização entre agricultores e entidades do setor.
O presidente do Sindicato Rural de Maringá, José Antônio Borghi, está entre os produtores que voltaram a apostar na cultura. Trabalhando com algodão em rotação com a soja há três safras, ele ampliou a área cultivada de 20 para 100 hectares ao longo desse período.
Na avaliação de Borghi, a diversificação representa uma estratégia importante para reduzir riscos econômicos e criar novas fontes de receita para as propriedades rurais. O produtor também considera que o Paraná reúne condições para recuperar parte da relevância que já teve na produção nacional.
Rotação de culturas pode favorecer soja e milho
Além do retorno econômico direto, o algodão pode contribuir para o desempenho de outras lavouras quando integrado a um sistema planejado de rotação de culturas. A alternância entre espécies auxilia na quebra dos ciclos de determinadas pragas e doenças e pode favorecer o aproveitamento de nutrientes e as condições produtivas do solo.
De acordo com Wilson Paes, consultor da Acopar e pesquisador com quatro décadas de experiência no antigo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), a soja cultivada após o algodão pode apresentar ganhos de produtividade de até 20%, dependendo das condições de manejo e do sistema produtivo utilizado.
O especialista ressalta, entretanto, que a cotonicultura exige conhecimento técnico, acompanhamento frequente da lavoura e monitoramento rigoroso de pragas. O ciclo mais longo e as particularidades do manejo podem representar obstáculos para quem pretende ingressar na atividade.
Nesse contexto, a Acopar oferece suporte aos produtores em diferentes etapas, incluindo a escolha de cultivares, o manejo do solo, a adubação, a colheita, o transporte e a comercialização. O objetivo é reduzir dificuldades operacionais e ampliar as possibilidades de sucesso dos agricultores interessados na cultura.
Em Ibiporã, no Norte do Estado, o produtor Getulio Frederico Neto relata resultados positivos em seu terceiro ano de cultivo, realizado em rotação com o trigo. Com o acompanhamento técnico da associação, ele recebe orientações que auxiliam no planejamento e na condução da produção.
Tecnologia e organização são fundamentais para o crescimento
Para Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema FAEP, a valorização das fibras naturais cria uma oportunidade para reposicionar o agronegócio paranaense diante das novas exigências do mercado global. O dirigente destaca que a experiência histórica do Estado, aliada à tecnologia, à assistência técnica e à organização da cadeia produtiva, pode contribuir para a retomada do algodão.
O avanço da cotonicultura, no entanto, dependerá de fatores que vão além da demanda por tecidos naturais. A viabilidade econômica, o controle de pragas, a disponibilidade de máquinas, o acesso à orientação especializada e a estrutura de comercialização serão determinantes para que mais agricultores decidam investir na cultura.
Para o Paraná, a retomada pode significar mais diversificação no campo, novas oportunidades de renda e melhores condições para integrar diferentes atividades agrícolas dentro da mesma propriedade.
Diante desse cenário, o algodão volta a ocupar espaço nas discussões sobre o futuro da agricultura estadual. A combinação entre demanda por fibras naturais, modernização produtiva e benefícios potenciais da rotação de culturas pode favorecer uma nova fase da cotonicultura paranaense, desde que os investimentos sejam acompanhados de planejamento e suporte técnico adequado.









