No interior de Concórdia, no Oeste de Santa Catarina, uma história familiar mostra como trabalho, planejamento e persistência podem transformar uma pequena propriedade rural. Há 19 anos, Leucir e Márcia Miglioretto decidiram apostar na suinocultura e começaram uma trajetória que, aos poucos, mudou completamente a realidade da família.
O início foi simples. O casal tinha a terra, mas praticamente toda a estrutura ainda precisava ser construída. Sem grandes recursos, os primeiros galpões foram levantados pelos próprios produtores. Enquanto Márcia permanecia mais ligada à propriedade e aos cuidados com a família, Leucir conciliava a criação de suínos com trabalhos fora da granja, inclusive como pedreiro.
A decisão de deixar a cidade e viver no campo também representou uma mudança significativa para Márcia, que havia crescido em ambiente urbano e não tinha experiência com a atividade. O projeto, entretanto, ganhou força com o passar dos anos e com o esforço conjunto do casal.
A expansão aconteceu de forma gradual. Um galpão deu lugar a outro e, posteriormente, a novas ampliações. Atualmente, a propriedade conta com quatro estruturas destinadas à terminação, com capacidade para aproximadamente 2.660 suínos.
Os animais chegam à granja com peso entre 25 e 30 quilos e permanecem na propriedade durante aproximadamente três meses, período em que recebem alimentação e cuidados específicos até alcançarem cerca de 130 quilos, quando então seguem para o abate.
Por trás dos números, existe uma rotina intensa. O trabalho começa ainda de madrugada e se estende ao longo do dia. Alimentação, vacinação, manejo dos animais, acompanhamento dos lotes e administração da propriedade fazem parte das responsabilidades da família.
O caminho, porém, não foi marcado apenas por conquistas. Em determinado momento, depois de deixar uma sociedade, o casal precisou assumir sozinho uma série de compromissos financeiros. Com filho pequeno e contas para pagar, a família passou por períodos de dificuldades e precisou dividir o tempo entre o trabalho dentro e fora da granja.
A estratégia adotada foi continuar trabalhando e reinvestir parte dos resultados na própria atividade. Dessa maneira, a propriedade foi crescendo sem uma grande transformação de uma hora para outra. Cada nova estrutura representava mais uma etapa de um projeto construído ao longo de quase duas décadas.
Além da ampliação física, a gestão da granja também evoluiu. O acompanhamento do consumo de ração, mortalidade, manejo e desempenho dos animais passou a fazer parte da rotina. A assistência técnica também contribuiu para a adoção de novas práticas e para o acompanhamento dos resultados de cada lote.
O médico-veterinário e supervisor de terminação Janier Luiz Capes destaca justamente a organização da propriedade e a abertura do casal para implementar orientações técnicas. A combinação entre conhecimento, acompanhamento dos indicadores e confiança no trabalho de assistência técnica tornou-se parte importante do desenvolvimento da produção.
Com o passar dos anos, a experiência acumulada fez com que a propriedade deixasse de ser apenas o local de produção da família. A granja passou também a receber visitas, treinamentos e atividades destinadas a outros produtores, sendo utilizada como exemplo de práticas de manejo e organização na suinocultura.
Para Leucir e Márcia, entretanto, os resultados vão muito além dos quatro galpões. A atividade possibilitou construir a casa da família, proporcionar educação aos filhos e alcançar objetivos que, no começo da caminhada, pareciam distantes.
A suinocultura também representa, para o casal, uma forma de participar de uma cadeia produtiva que começa dentro das propriedades rurais e se conecta posteriormente às agroindústrias, ao comércio e ao consumidor.
Outro desafio que começa a fazer parte da história da família é a sucessão rural. O filho mais velho, Eduardo, escolheu seguir uma trajetória profissional diferente, enquanto Artur, de apenas 10 anos, ainda está construindo seus próprios interesses. Os pais admitem o desejo de que algum dos filhos dê continuidade ao trabalho, mas defendem que essa decisão deverá partir deles.
Depois de quase duas décadas, a trajetória dos Miglioretto mostra que a construção de uma atividade rural pode acontecer de maneira gradual, enfrentando períodos de dificuldade e aproveitando oportunidades de crescimento. O que começou com uma propriedade praticamente sem estrutura transformou-se em uma granja com quatro galpões e capacidade para milhares de animais.
Mais do que o tamanho alcançado pela produção, a história do casal é marcada pela participação direta da família em cada etapa. Da construção dos primeiros galpões ao manejo diário dos animais, foram anos de trabalho, investimentos, dificuldades e aprendizado.
Para Leucir e Márcia, o resultado representa a concretização de um projeto que, no início, chegou a ser considerado arriscado por pessoas próximas. Hoje, a propriedade simboliza para a família não apenas uma atividade econômica, mas também o resultado de uma decisão tomada quase duas décadas atrás: acreditar no próprio trabalho e construir, passo a passo, o futuro no campo.









