Instabilidade elétrica compromete a produção de piscicultor em São João do Ivaí, ameaça contratos comerciais e reacende o debate sobre a qualidade da energia no meio rural.
A instabilidade no fornecimento de energia elétrica provocou a morte de aproximadamente 450 mil peixes, totalizando cerca de 230 toneladas, em uma propriedade rural de São João do Ivaí, no Norte do Paraná. O episódio causou um prejuízo que pode alcançar R$ 2,5 milhões, segundo informações divulgadas pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP). Além das perdas financeiras, o caso coloca em evidência a dependência da piscicultura em relação à infraestrutura elétrica e os desafios enfrentados pelos produtores rurais.
O problema atingiu uma atividade que possui peso significativo na economia paranaense. Conforme dados do Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, o Paraná produziu mais de 273 mil toneladas de peixes em 2025, respondendo por quase 70% da produção brasileira de tilápia. O estado também teve participação expressiva nas exportações do setor, sendo responsável por aproximadamente metade do volume de tilápia enviado pelo Brasil ao mercado internacional naquele ano.
Na piscicultura, o fornecimento regular de energia é indispensável para o funcionamento dos aeradores, equipamentos responsáveis por manter os níveis adequados de oxigênio na água. Quando há interrupções prolongadas ou oscilações de tensão, os sistemas podem deixar de operar corretamente, comprometendo a sobrevivência dos peixes e o desenvolvimento dos lotes.
Perdas comprometem produção e contratos
A propriedade atingida pertence à família de Edilson Pini, que trabalha com piscicultura há cerca de quatro décadas. A estrutura produtiva conta com 15 viveiros, capacidade de produção anual aproximada de 800 toneladas de peixes e frigorífico próprio.
A mortalidade registrada compromete a oferta de pescado prevista para os quatro meses seguintes e coloca em risco compromissos comerciais já assumidos. Entre os clientes atendidos estão programas de alimentação escolar de 22 municípios paranaenses, além de instituições como Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Sesc e Senac.
Segundo o produtor, os problemas se intensificaram no dia 29 de setembro, após uma interrupção no fornecimento de energia durante a tarde. Mesmo com o acionamento de um gerador para manter os equipamentos funcionando, a situação se agravou quando o sistema apresentou uma pane por volta das 20h.
A falha danificou dois motores de arranque e a placa de automação do equipamento, gerando despesas de reparo estimadas em R$ 20 mil. Durante a noite, familiares e funcionários tentaram preservar os peixes por meio de procedimentos manuais, inclusive com a aplicação de oxigênio granulado. No entanto, as medidas não foram suficientes para impedir as perdas.
O fornecimento de energia foi restabelecido por volta das 13h do dia seguinte, após aproximadamente 23 horas de interrupção, conforme o relato apresentado pelo piscicultor.
Pini afirma que a instabilidade elétrica já era uma preocupação antiga na região, com registros frequentes de oscilações de tensão. Ele também relata ter realizado dezenas de contatos com os canais de atendimento da Companhia Paranaense de Energia (Copel), além de procurar representantes e equipes técnicas para buscar uma solução.
O produtor calcula que a reposição dos peixes perdidos exigirá um investimento próximo de R$ 2,5 milhões. Diante do prejuízo, a família busca reorganizar compromissos com compradores, fornecedores e instituições financeiras para tentar manter a atividade em funcionamento.
Oscilações elevam custos e dificultam o planejamento
As dificuldades relatadas pelos piscicultores não se limitam às interrupções completas. As oscilações de tensão, conhecidas popularmente como “pisca-pisca”, também podem prejudicar os equipamentos e dificultar o acionamento automático dos geradores.
Na região de Marechal Cândido Rondon, produtores relatam episódios frequentes desse tipo de ocorrência, principalmente no final da tarde e no início da noite. Em determinadas situações, a tensão cai sem que a energia seja totalmente interrompida, o que pode impedir a entrada dos sistemas de emergência ou acionar dispositivos de proteção dos motores.
Edio Chapla, presidente da Comissão Técnica de Aquicultura do Sistema FAEP e do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon, explica que a falta de oxigenação adequada prejudica o crescimento dos peixes e pode prolongar o período necessário para que atinjam o peso comercial.
Além dos danos à produção, os piscicultores precisam arcar com despesas adicionais de combustível, manutenção e substituição de equipamentos. O uso constante de geradores movidos a diesel aumenta os custos operacionais e reduz a rentabilidade dos empreendimentos.
Chapla também destaca o desgaste emocional causado pela necessidade de monitorar continuamente o fornecimento de energia e verificar se os equipamentos de emergência funcionarão quando necessário. Para famílias que dependem diretamente da produção rural, a insegurança dificulta o planejamento e amplia os riscos da atividade.
FAEP cobra melhorias na infraestrutura rural
O Sistema FAEP considera necessário ampliar a atenção à qualidade da energia elétrica fornecida às propriedades rurais. Para a entidade, a instabilidade ameaça investimentos, compromete a produtividade e pode colocar em risco a continuidade de negócios que geram renda e empregos no interior do estado.
A preocupação envolve não apenas a piscicultura, mas também outras atividades agropecuárias que dependem de equipamentos elétricos para manter seus processos produtivos.
A regularidade do fornecimento é especialmente importante em sistemas de criação intensiva, nos quais uma falha prolongada pode provocar perdas em poucas horas. Nesse contexto, a infraestrutura elétrica representa um componente essencial da produção, assim como a disponibilidade de água, ração, mão de obra e assistência técnica.
Copel atribui ocorrências aos temporais
Em manifestação oficial, a Copel informou que os problemas registrados em 29 de setembro ocorreram em meio a fortes tempestades que atingiram diferentes regiões do Paraná. Naquele dia, 173,7 mil unidades consumidoras tiveram o fornecimento interrompido em decorrência dos eventos climáticos, das quais 107,2 mil estavam na região Noroeste.
Segundo a companhia, equipes técnicas atenderam a 385 ocorrências relacionadas aos temporais em São João do Ivaí e municípios próximos. O trabalho contou com profissionais da base de serviços de Ivaiporã e eletricistas vinculados ao programa Copel Agro, destinado ao atendimento de produtores de proteína animal.
A empresa declarou que, após receber o chamado do cliente na tarde de 29 de setembro, mobilizou cinco equipes para atender à ocorrência. Entre os serviços realizados estavam a reconstrução de trechos da rede elétrica danificados pelo rompimento de cabos, pela quebra de postes e pela queda de galhos sobre as linhas de distribuição, inclusive em áreas de difícil acesso.
A Copel acrescentou que o Paraná enfrentou cinco eventos climáticos consecutivos de grande intensidade ao longo de um período de 35 dias, entre setembro e o início de outubro. A companhia também informou manter investimentos na infraestrutura e um plano de contingência que prevê ações preventivas, monitoramento da rede e mobilização de equipes para restabelecer o fornecimento.
Energia confiável é fundamental para o agronegócio
O episódio em São João do Ivaí evidencia os impactos que falhas no fornecimento elétrico podem provocar sobre a produção agropecuária. A perda de centenas de milhares de peixes representa não apenas o desaparecimento de um lote de produção, mas também meses de trabalho, investimentos e compromissos comerciais assumidos pela família produtora.
O caso reforça a importância de buscar soluções que conciliem a recuperação rápida da rede após eventos climáticos com a melhoria contínua da qualidade do serviço nas áreas rurais.
Para os produtores, a disponibilidade de energia confiável é uma condição indispensável para manter a produtividade, controlar os custos e garantir a segurança dos sistemas de criação. Em um estado com forte participação na produção nacional de tilápia, assegurar condições adequadas de infraestrutura elétrica é também uma medida de proteção à economia rural e ao abastecimento de alimentos.
Fonte das informações: dados e relatos divulgados pela CNN Brasil, com informações da FAEP e posicionamento oficial da Copel.









