Dólar em alta preocupa produtores rurais e ameaça elevar custos da safra

A valorização da moeda americana voltou a acender um alerta para a economia brasileira e para o agronegócio. Na manhã desta segunda-feira (26), primeiro dia de negociações após o segundo turno das eleições presidenciais, o dólar ultrapassou R$ 5,60, enquanto a Bolsa brasileira registrou forte queda e teve as negociações interrompidas temporariamente pelo mecanismo conhecido como circuit breaker.

A avaliação é do pesquisador Felippe Serigati, do FGV Agro, que aponta uma combinação de fatores políticos, fiscais e internacionais como responsáveis pela instabilidade observada no mercado financeiro. Entre as principais preocupações estão os possíveis reflexos da alta do dólar sobre os combustíveis, a inflação e o custo do crédito para empresas e produtores rurais.

Diesel mais caro pode pesar no bolso do produtor

Um dos principais pontos de atenção para o setor agropecuário é a possível elevação dos custos dos combustíveis, especialmente do diesel. O produto é fundamental para o transporte de mercadorias, o funcionamento de máquinas agrícolas e a execução de diversas atividades no campo.

Segundo Serigati, o mercado brasileiro já enfrentava dificuldades relacionadas à diferença entre os preços praticados internamente e os custos de importação do combustível. Conforme a avaliação apresentada pelo pesquisador, essa diferença poderia superar R$ 3 por litro em determinadas condições comerciais.

Com o dólar em alta, a aquisição de diesel no exterior tende a ficar mais cara, aumentando a pressão por reajustes no mercado nacional. Caso esse movimento se confirme, os efeitos poderão atingir diferentes etapas da cadeia produtiva, desde o preparo do solo e o plantio até o transporte e a comercialização da produção.

A elevação dos combustíveis também pode contribuir para o aumento dos preços de produtos e serviços, pressionando a inflação. Esse cenário pode dificultar a redução das taxas de juros e manter o crédito mais caro, um fator relevante para produtores que dependem de financiamento para custear a safra, adquirir insumos e investir em equipamentos.

Cenário internacional contribui para a volatilidade

Além das questões internas, o comportamento dos mercados internacionais também ajuda a explicar a instabilidade financeira. De acordo com o pesquisador, enquanto os investidores brasileiros concentravam suas atenções no processo eleitoral, outros mercados registravam movimentos de alta nas taxas de juros futuros, especialmente nos Estados Unidos e na França.

Quando os juros e as perspectivas de retorno de investimentos no exterior aumentam, países emergentes, como o Brasil, podem enfrentar maior pressão sobre suas moedas e seus ativos financeiros. Isso ocorre porque parte dos investidores passa a buscar alternativas consideradas mais atrativas ou seguras em outros mercados.

Na avaliação de Serigati, os movimentos registrados no início da semana refletem, em parte, a incorporação dessas mudanças internacionais aos preços dos ativos brasileiros.

Contas públicas e confiança dos investidores entram no radar

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também integra o cenário analisado pelo pesquisador. Segundo ele, a continuidade do atual governo traz cobranças imediatas relacionadas ao desempenho econômico, à condução das contas públicas e à capacidade de implementar medidas que contribuam para a estabilidade financeira.

O governo terá de administrar os desafios econômicos internos em um ambiente internacional mais complexo, além de buscar apoio político para avançar em sua agenda. Na avaliação do especialista, a combinação desses fatores pode dificultar a recuperação da confiança dos investidores.

Ainda assim, a movimentação observada durante a manhã não permite determinar, isoladamente, como o mercado encerraria o pregão ou qual seria a duração dos efeitos sobre a economia.

Agronegócio acompanha possíveis impactos

Para o produtor rural, a trajetória do dólar exige atenção, especialmente diante dos possíveis reflexos sobre combustíveis, fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas e outros insumos que podem sofrer influência da cotação internacional.

Ao mesmo tempo, a valorização da moeda americana pode favorecer a receita de exportadores que recebem em dólares, embora o resultado dependa dos preços internacionais, dos custos de produção, dos contratos e das condições de comercialização.

Dessa forma, os efeitos não são iguais para todos os segmentos do agronegócio. Enquanto algumas atividades exportadoras podem encontrar oportunidades, outras podem enfrentar margens mais apertadas em razão do encarecimento dos insumos e da logística.

O cenário reforça a importância de acompanhar as oscilações cambiais e seus desdobramentos sobre os custos de produção, o crédito e os preços agrícolas. Para o campo, a combinação entre câmbio, inflação e juros continuará sendo um dos fatores importantes para o planejamento financeiro e a tomada de decisões na próxima safra.

Fonte das informações: análise do pesquisador Felippe Serigati, do FGV Agro, publicada pelo Agro+ Podcast em 26 de outubro de 2026. A cotação do dólar mencionada refere-se às negociações da manhã daquele dia, não ao fechamento do mercado. A diferença de preços do diesel foi atribuída ao pesquisador e não teve confirmação independente no material de origem.