Bioinsumos e drones ampliam a sustentabilidade do algodão no semiárido

A combinação de tecnologias biológicas, manejo integrado de pragas e ferramentas digitais pode representar um avanço importante para a produção de algodão no semiárido brasileiro. Pesquisas desenvolvidas pela Embrapa apontam alternativas para aumentar a resistência das lavouras às condições climáticas adversas, reduzir perdas produtivas e tornar a cotonicultura mais sustentável. As iniciativas foram apresentadas durante a ExpoCariri 2026, realizada no dia 30 de outubro, no Ceará.

Entre os principais desafios enfrentados pelos produtores da região estão a irregularidade das chuvas, as temperaturas elevadas e a ocorrência de pragas, especialmente o bicudo-do-algodoeiro. Diante desse cenário, pesquisadores destacam a importância de integrar conhecimentos sobre o solo, a biodiversidade e tecnologias de precisão para melhorar o desempenho das lavouras.

Microrganismos podem ajudar as plantas a enfrentar a seca

Uma das linhas de pesquisa apresentadas envolve o desenvolvimento de bioinsumos capazes de contribuir para a adaptação das culturas agrícolas ao estresse hídrico. O projeto CaatÁgua, realizado com apoio da Finep e participação de unidades da Embrapa e da Rede Borborema de Agroecologia, investiga bactérias associadas a espécies da Caatinga e ao algodoeiro.

A proposta é identificar microrganismos que favoreçam o desenvolvimento das plantas em ambientes com baixa disponibilidade de água. Também são estudados fungos entomopatogênicos, que podem atuar no combate a insetos-praga.

Em experimentos laboratoriais, linhagens do fungo Metarhizium demonstraram capacidade de provocar mortalidade superior a 80% dos bicudos expostos. Os pesquisadores agora buscam aperfeiçoar a aplicação dessas alternativas para ampliar sua eficiência no campo.

Tecnologia biológica fortalece a resistência das lavouras

Outra inovação apresentada foi a tecnologia Auras, desenvolvida pela Embrapa em parceria com a empresa NOOA. O produto utiliza a bactéria Priestia aryabhattai, identificada em pesquisas relacionadas à adaptação de plantas da Caatinga à seca.

O microrganismo pode ser aplicado nas sementes ou diretamente no sulco de plantio, contribuindo para o crescimento das raízes, a absorção de nutrientes e os mecanismos de proteção das plantas contra condições ambientais desfavoráveis.

De acordo com os resultados apresentados, a tecnologia pode proporcionar uma proteção produtiva média de aproximadamente 18 arrobas de algodão por hectare em situações de estresse climático. O produto também vem sendo avaliado em culturas como soja e milho.

Manejo integrado é fundamental para combater o bicudo

O controle do bicudo-do-algodoeiro continua sendo uma das principais preocupações da cotonicultura brasileira. A praga possui elevada capacidade de adaptação e pode sobreviver em plantas remanescentes de algodão, dificultando sua erradicação entre as safras.

Nesse contexto, o manejo integrado de pragas (MIP) ganha importância ao reunir diferentes estratégias de prevenção e controle. Uma das medidas destacadas pelos pesquisadores é o vazio sanitário, período em que as áreas devem permanecer livres de plantas vivas de algodão.

A eliminação de rebrotas e plantas voluntárias ajuda a interromper o ciclo de desenvolvimento do inseto. Além disso, a preservação de predadores e parasitoides naturais contribui para o equilíbrio biológico nas lavouras.

A utilização de defensivos químicos também deve ocorrer de maneira criteriosa, respeitando o monitoramento e os níveis de controle das pragas, evitando aplicações desnecessárias e reduzindo os riscos de resistência dos insetos.

Drones ampliam o alcance do controle biológico

A agricultura de precisão também foi destaque durante a ExpoCariri 2026. Pesquisadores da Embrapa apresentaram sistemas de drones capazes de realizar a distribuição de organismos benéficos utilizados no controle biológico.

Os equipamentos permitem liberar parasitoides diretamente nas áreas cultivadas, reduzindo a necessidade de deslocamento manual e aumentando a eficiência operacional.

Para o combate ao bicudo, a estratégia apresentada prevê a liberação de aproximadamente 730 parasitoides por hectare, com início das operações durante o surgimento dos primeiros botões florais do algodoeiro.

Além da dispersão de agentes biológicos, drones equipados com sensores multiespectrais podem auxiliar no acompanhamento das condições das plantas, identificando possíveis problemas e contribuindo para decisões mais precisas no manejo agrícola.

Pesquisa e inovação fortalecem a cotonicultura

A integração entre bioinsumos, controle biológico, drones e práticas de manejo sustentável demonstra o potencial da tecnologia para transformar a produção de algodão no semiárido brasileiro.

As iniciativas buscam diminuir a dependência de aplicações químicas, melhorar o aproveitamento dos recursos naturais e aumentar a segurança produtiva diante das mudanças climáticas.

A aproximação entre instituições de pesquisa, empresas e produtores rurais também é considerada essencial para ampliar o acesso às novas ferramentas e fortalecer a cotonicultura em regiões que enfrentam desafios climáticos e fitossanitários.

O avanço dessas tecnologias pode contribuir para uma agricultura mais eficiente, sustentável e preparada para as condições do semiárido, valorizando a produção rural e ampliando as oportunidades para os agricultores brasileiros.