Com a proximidade das eleições que definirão os governantes do Paraná e do Brasil a partir de 2027, o setor agropecuário paranaense coloca na mesa uma série de demandas consideradas fundamentais para garantir a continuidade da produção, a geração de renda e o desenvolvimento econômico no campo.
Entre os principais desafios estão o aumento do endividamento dos produtores, as dificuldades de acesso ao crédito, os juros elevados, a redução da cobertura do seguro rural, os impactos cada vez mais frequentes de eventos climáticos extremos e os problemas de infraestrutura, especialmente nas estradas rurais e no fornecimento de energia elétrica.
Diante desse cenário, o Sistema FAEP reuniu reivindicações apresentadas pelos produtores e sindicatos rurais e encaminhou propostas aos candidatos aos governos estadual e federal. Para o Paraná, foi elaborado o Plano Diretor do Agronegócio Paranaense 2027/30, que reúne mais de 360 propostas construídas com a participação dos 163 sindicatos rurais.
No âmbito nacional, a entidade também apresentou um documento com 15 prioridades técnicas e propostas jurídicas distribuídas em sete áreas. O material foi entregue ao candidato à Presidência da República Ronaldo Caiado durante visita à sede da FAEP, em Curitiba, em julho.
Segundo a entidade, a intenção é transformar as demandas do setor em políticas públicas permanentes, evitando que problemas recorrentes sejam tratados somente por meio de medidas emergenciais.
Segurança no campo
A segurança rural aparece entre as prioridades apresentadas. Embora a Patrulha Rural Comunitária 4.0, da Polícia Militar, tenha registrado ações de recuperação de animais e veículos, cadastramento de propriedades e combate à criminalidade, o setor defende a ampliação da estrutura.
Entre as propostas está a transformação da Patrulha Rural em uma política permanente, prevista em lei, com aumento do efetivo e investimentos em conectividade, inclusive internet via satélite nas viaturas.
A FAEP também defende maior integração entre a Patrulha Rural, o Batalhão de Polícia Rodoviária e o Corpo de Bombeiros. A ideia é ampliar ações relacionadas à circulação de máquinas agrícolas nas rodovias e à prevenção e combate a incêndios em propriedades rurais.
Outra reivindicação é a criação de delegacias regionais especializadas em crimes ocorridos no campo e de conselhos municipais de segurança rural onde essas estruturas ainda não existem.
Energia elétrica preocupa produtores
As interrupções no fornecimento de energia também estão entre os problemas destacados pelo setor produtivo.
Os temporais e outros eventos climáticos registrados no Paraná provocaram interrupções que afetaram centenas de milhares de unidades consumidoras. Para atividades como produção de leite, piscicultura, avicultura e suinocultura, a falta de energia pode provocar perdas em poucas horas.
Em propriedades rurais, produtores chegaram a utilizar geradores para manter equipamentos e sistemas essenciais funcionando. Em um dos casos citados pela FAEP, um piscicultor precisou utilizar dois geradores para garantir a oxigenação dos tanques, com custo estimado de R$ 7,8 mil por dia apenas com combustível.
Ao mesmo tempo, a tarifa de energia da Copel teve aumento de 20,51% em junho, conforme autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Diante desse cenário, o setor defende a criação de um programa estadual permanente para modernizar a infraestrutura elétrica rural, além da ampliação dos recursos destinados ao RenovaPR, programa voltado à geração distribuída de energia a partir de fontes renováveis.
Também são propostas mudanças na fiscalização e a elaboração de um planejamento energético que considere as diferentes regiões do Estado.
Estradas rurais ainda são um gargalo
Antes de chegar às rodovias, boa parte da produção agrícola percorre quilômetros de estradas municipais e vicinais. Quando essas vias estão em condições ruins, os custos aumentam e o transporte se torna mais demorado.
Estudo realizado pelo ESALQ-LOG, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), estima que as deficiências das estradas vicinais geram aproximadamente R$ 6,4 bilhões por ano em despesas operacionais adicionais no país.
O Paraná possui cerca de 170 mil quilômetros de estradas vicinais. Dentro dessa extensão, aproximadamente 16,9 mil quilômetros são classificados como estradas terciárias.
Além de dificultar o transporte de grãos, leite, animais e outros produtos, a precariedade dessas vias interfere diretamente na rotina das comunidades rurais, afetando o acesso a escolas, unidades de saúde e outros serviços.
Entre os problemas apontados estão a falta de drenagem, necessidade de cascalhamento, pontes em condições inadequadas e falta de equipamentos suficientes para manutenção.
A proposta apresentada ao próximo governo estadual é a criação de um Programa Estadual Permanente de Estradas Rurais, com recursos contínuos e critérios técnicos para definir as áreas prioritárias. A entidade também defende um fundo de apoio aos municípios e investimentos na substituição e modernização das pontes rurais.
Crédito rural e previsibilidade
Outro ponto central é o acesso ao crédito. O financiamento é fundamental para que o produtor consiga adquirir insumos, investir na propriedade e conduzir a produção até a comercialização.
Dados do Banco Central mostram que, na safra 2025/26, foram desembolsados R$ 344,9 bilhões em crédito rural, volume 10,1% inferior ao registrado no ciclo anterior.
Do total, R$ 68,7 bilhões foram destinados ao Pronaf, R$ 62,2 bilhões ao Pronamp e R$ 214 bilhões aos demais produtores.
O período também foi marcado por juros elevados, com a taxa Selic chegando a 14,25% ao ano.
Para o setor produtivo, uma das necessidades é garantir maior previsibilidade ao Plano Safra, transformando-o em uma política de Estado com planejamento plurianual e maior integração entre crédito, seguro rural e mecanismos de gestão de risco.
Endividamento exige soluções de longo prazo
A situação financeira de parte dos produtores também preocupa o setor.
A Medida Provisória 1.376/2026 criou um programa de renegociação de dívidas rurais, com prazo de adesão até 12 de novembro. Entretanto, levantamentos realizados pela FAEP junto a sindicatos rurais indicam dificuldades para que os produtores consigam efetivamente acessar as condições previstas.
Entre os obstáculos relatados estão exigências adicionais de garantias e operações com juros superiores aos contratos originais.
A avaliação apresentada pelo setor é de que medidas pontuais podem ajudar determinados produtores, mas não resolvem o problema estrutural do endividamento rural.
Por isso, a proposta é estabelecer uma política permanente de reestruturação financeira, com regras mais claras, critérios técnicos e condições compatíveis com os ciclos de produção.
Seguro rural ganha importância diante do clima
A gestão dos riscos climáticos é outro tema que ganhou espaço entre as reivindicações.
A ocorrência de eventos extremos tem provocado perdas em diferentes regiões produtoras, enquanto a área protegida pelo seguro rural diminuiu significativamente nos últimos anos.
Segundo os dados apresentados pela FAEP, a área segurada no Brasil caiu mais de 75% desde 2021. No Paraná, o número de apólices teria passado de 82,19 mil para 9,24 mil no mesmo período.
O orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural também sofreu redução, passando de R$ 1 bilhão para aproximadamente R$ 473 milhões em 2026.
Para especialistas citados no levantamento, ampliar a proteção seria uma forma de reduzir o impacto financeiro causado pelas perdas climáticas e evitar que o produtor precise recorrer a novas dívidas depois de uma quebra de safra.
Recentemente, a Lei 15.526/2026, originada do PL 2.951/2024, estabeleceu novas regras para a subvenção ao seguro rural. Entre os pontos previstos estão a execução obrigatória da subvenção dentro do limite estabelecido no orçamento, condições de crédito mais favoráveis para produtores segurados, prazos para regulação e pagamento de indenizações e bases para um fundo de cobertura de catástrofes.
A expectativa do setor agora é pela implementação efetiva dessas medidas.
O que o campo espera de 2027 em diante
As reivindicações apresentadas pelo Sistema FAEP colocam infraestrutura, segurança, energia, crédito, renegociação de dívidas e seguro rural entre os principais desafios para os próximos governos.
Para o setor produtivo, o objetivo é que essas questões sejam tratadas com planejamento de longo prazo e políticas públicas capazes de acompanhar a realidade das propriedades rurais.
O Paraná possui forte participação do agronegócio na economia e, diante de um cenário marcado por mudanças climáticas, custos elevados e dificuldades financeiras, produtores defendem maior previsibilidade para continuar investindo e produzindo.
Com as eleições se aproximando, as propostas agora ficam nas mãos dos futuros governantes. A expectativa apresentada pelas entidades do setor é que as demandas deixem de ser apenas compromissos de campanha e sejam transformadas em ações concretas a partir de 2027.









