Entre o Clima e a Colheita do Pinhão

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Safra de pinhão deve ser irregular no Sul, avalia engenheiro agrônomo especialista em araucárias

A previsão para a safra de pinhão deste ano indica variações significativas entre as regiões do Sul do Brasil. Em áreas como Bituruna, no Paraná, a expectativa é de baixa produção. A informação é do engenheiro agrônomo Antonio Marcos, especialista em araucárias, que concedeu entrevista exclusiva para esta matéria.

Segundo ele, a explicação não está nas condições atuais, mas sim no que ocorreu dois anos atrás, durante o período de polinização da Araucaria angustifolia, árvore símbolo da região Sul e responsável pela produção do pinhão.

“Muitas vezes o produtor observa uma safra menor e associa ao clima do ano vigente. Mas, no caso da araucária, precisamos olhar para trás. A formação do pinhão começa cerca de dois anos antes da colheita, no momento da polinização”, explica o engenheiro.


Clima no período de polinização é fator decisivo

De acordo com informações técnicas da Embrapa, a polinização da araucária depende de uma sincronia delicada entre o estróbilo masculino (estrutura que libera o pólen) e o estróbilo feminino (que recebe o pólen para formação da semente).

Conforme destaca Antonio Marcos, fatores climáticos adversos podem comprometer esse processo:

  • Excesso de chuvas no período de liberação do pólen pode reduzir sua dispersão.

  • Ventos muito fortes podem carregar o pólen para outras áreas, diminuindo a fecundação local.

  • Descompasso na maturação entre estróbilos masculinos e femininos pode impedir o encontro no momento ideal.

“Se o estróbilo masculino amadurece em um período de muita chuva ou vento intenso, o pólen pode não atingir o estróbilo feminino no tempo certo. Isso impacta diretamente a quantidade de sementes formadas”, ressalta.


Produção varia de região para região

O engenheiro reforça que essa condição não é uniforme em todo o Sul. Cada região apresenta comportamento produtivo distinto, pois o clima pode ter sido favorável em uma localidade e desfavorável em outra.

Um exemplo citado por ele ocorreu na safra passada: enquanto algumas áreas registraram baixa produtividade, municípios como Canoinhas, em Santa Catarina, tiveram produção considerada surpreendente.

“A araucária responde muito às condições microclimáticas. Por isso, não podemos generalizar a safra para todo o estado ou toda a região Sul”, explica.


Pinhão: alimento funcional e altamente nutritivo

Mesmo diante da possível redução na oferta em algumas localidades, o pinhão segue sendo um dos alimentos mais nutritivos da estação.

Segundo dados técnicos e nutricionais compilados pela Embrapa e citados pelo especialista, o pinhão é uma semente rica em:

  • Fibras

  • Proteínas

  • Gorduras boas (ômega 6 e 9)

  • Potássio

  • Zinco

  • Magnésio

  • Fósforo

  • Vitaminas do complexo B

  • Vitamina E

  • Luteína

Principais benefícios à saúde

Saúde cardiovascular
O potássio e as gorduras insaturadas auxiliam no controle da pressão arterial e do colesterol LDL, contribuindo para a prevenção de infartos e AVCs.

Controle da diabetes e do peso
O amido resistente e o alto teor de fibras proporcionam baixo índice glicêmico e maior saciedade, sendo um alimento interessante para diabéticos e para quem busca emagrecimento.

Funcionamento cerebral e nervoso
Vitaminas do complexo B, fósforo e magnésio são nutrientes essenciais para a memória e o desempenho cognitivo.

Ação antioxidante e fortalecimento da imunidade
A presença de zinco, cobre e vitamina E ajuda no combate aos radicais livres e no fortalecimento do sistema imunológico.

Saúde da visão
A luteína contribui para a proteção ocular e pode auxiliar na redução do risco de doenças como catarata.

Saúde intestinal
As fibras favorecem o trânsito intestinal e ajudam a prevenir a constipação.

Alimento sem glúten
Naturalmente livre de glúten, o pinhão pode ser consumido por pessoas com doença celíaca ou sensibilidade.


Orientações de consumo

Antonio Marcos também destaca a importância do consumo equilibrado:

“Apesar de extremamente saudável, o pinhão é um alimento energético. O ideal é consumir com moderação.”

  • A recomendação média é de 10 a 15 unidades por porção.

  • O cozimento é a forma mais comum de preparo — e pode permitir que nutrientes presentes na casca migrem para a amêndoa.

  • É versátil e pode ser utilizado em saladas, risotos, farofas, bolos, doces ou consumido cozido e sapecado.


Valor econômico e ambiental

Além da importância alimentar, o especialista lembra que o pinhão tem papel relevante na economia regional e na preservação da araucária, espécie ameaçada de extinção.

“Valorizar o consumo consciente e o manejo adequado é também uma forma de incentivar a conservação da araucária, patrimônio ambiental do Sul do Brasil”, conclui.

A entrevista reforça que a produção de pinhão é resultado de um ciclo biológico complexo, fortemente dependente do clima, e que cada safra carrega reflexos de anos anteriores. Mesmo com variações regionais, o pinhão segue sendo símbolo cultural, econômico e nutricional da região Sul.