O avanço da vitivinicultura no Vale do São Francisco tem sido impulsionado pela adoção de soluções científicas adaptadas às condições do semiárido. Um estudo recente aponta que a aplicação conjunta da termovinificação e de leveduras nativas da própria região representa um caminho promissor para aprimorar a elaboração de vinhos Syrah, agregando qualidade, identidade e competitividade ao produto final.
Os experimentos demonstraram que a termovinificação favorece o desempenho da fermentação alcoólica ao submeter as uvas a um aquecimento controlado antes do início do processo. Essa etapa contribuiu para maior eficiência fermentativa e incremento no teor alcoólico dos vinhos, com elevação de até dois pontos percentuais em relação aos métodos convencionais. O resultado é um vinho mais estruturado, sem comprometer o perfil jovem que caracteriza a produção tropical do Vale.

Outro aspecto relevante foi o uso de leveduras autóctones, selecionadas a partir da microbiota natural das uvas cultivadas na região. Essas leveduras apresentaram elevada tolerância ao álcool e um metabolismo mais gradual quando comparadas às cepas comerciais, favorecendo o desenvolvimento de aromas mais complexos e equilibrados. Esse comportamento reforça o potencial das leveduras locais como elemento estratégico para a construção de uma identidade sensorial própria dos vinhos do Vale do São Francisco.
O estudo também evidenciou a importância do chamado terroir microbiológico, conceito que valoriza a influência dos microrganismos nativos na expressão do vinho. As leveduras utilizadas na pesquisa foram disponibilizadas pela Coleção de Microrganismos de Interesse Agroindustrial da Embrapa Uva e Vinho, garantindo segurança científica e rastreabilidade ao processo. A análise mostrou que práticas de vinificação não convencionais podem ser viáveis e eficazes, especialmente em regiões de clima quente.
Além do teor alcoólico, os pesquisadores avaliaram a formação de glicerol durante a fermentação, composto associado à sensação de maciez e ao aumento da percepção de corpo do vinho. Em um dos tratamentos com levedura nativa, o teor de glicerol se destacou, indicando maior potencial de equilíbrio sensorial e agradabilidade ao paladar.
As avaliações sensoriais confirmaram que os vinhos produzidos com a combinação de termovinificação e culturas mistas de leveduras apresentaram maior complexidade e aceitação. Esses resultados são particularmente relevantes para vinhos destinados ao consumo jovem, perfil predominante da produção regional.
Para especialistas envolvidos no trabalho, a integração entre inovação enológica e recursos biológicos locais amplia as possibilidades de uma produção mais sustentável e alinhada às exigências do mercado. Além disso, os achados fortalecem a recente Indicação de Procedência dos vinhos do Vale do São Francisco, ao evidenciar que a qualidade do produto está diretamente ligada às práticas adotadas e às características naturais da região. Assim, a pesquisa contribui para consolidar o Vale como um polo de vinhos tropicais com identidade própria e crescente reconhecimento.








